segunda-feira, 12 de setembro de 2016

PRETO-VELHO E SEUS ENCANTOS (Evandro Mendonça)



Ao apresentarmos esta obra, não foi nosso intuito inventarmos uma linha de Preto-Velhos e Africanos, pois quando nascemos ela já existia, nem tão pouco codificá-la à nossa maneira, apenas formularmos um estudo, até mesmo superficial de sua existência, tentando mostrar princípios e fundamentos com a intenção de orientar futuros interessados na religião de Umbanda. Sei que não vou contentar a todos, coisa que nem o nosso Pai Oxalá conseguiu fazer. Baseado em nossos estudos, queremos mostrar uma maneira simples e fácil de cultuar esses pretos velhos e Africanos. E tudo que expomos nesta obra só tem o intuito de somar e nunca diminuir essa Linha de Umbanda. E se houver alguém de opinião contraria, a ele pedimos desculpas e solicitamos que o mesmo nos apresente bases e conceitos sobre a Umbanda, apoiados é claro, na razão e lógica. Até porque não queremos ser o dono da verdade absoluta. Aproveitando também as palavras ditas acima pelo Caboclo Sete Encruzilhadas através do médium Zélio Fernandino de Morais, eu começo as minhas lembrando a todos os irmãos umbandistas que os Pretos Velhos e Africanos hoje se encontram muito esquecidos por nós dentro dos terreiros de Umbanda, coisa que não deveríamos deixar acontecer. Hoje na maioria dos terreiros e tendas de Umbanda só se fala em primeiro lugar em Exus e segundo lugar em Caboclos, e os Pretos Velhos ficando em terceiro lugar, muitas vezes lembrados somente no seu dia, treze de maio que é sua data comemorativa. Isso não pode e não deve acontecer, é claro que como diz o ditado de Umbanda “sem Exu não se faz nada”, mas não devemos esquecer que os Caboclos e Pretos Velhos são os responsáveis pela evolução da Umbanda e sua Linha de Esquerda, sendo os Exus e pombas-gira subordinados pelos mesmos. A força de um Caboclo e Preto Velho, é superior a qualquer outra força dentro da Umbanda e sua Linha de Esquerda. Está na hora de trazermos de volta mais assiduamente para dentro dos nossos terreiros de Umbanda essa força, esses Preto Velhos e Africanos que depois de tudo que passaram em vida, ainda assim querem nos ajudar em espírito. E estão cada vez mais sendo por nós esquecidos no tempo, depois de ter sido um Preto-Velho um dos espíritos principiantes da Religião de Umbanda. Embora se manifestem com um estilo grotesco, rústico, falando ás vezes simploriamente ou até mesmo humoristicamente, sejam eles espíritos atrasados. É preciso notar o fundo moral e a inteligência de seus ensinamentos, baseados sempre no evangelho do Grande Pai Oxalá. Portanto, não podemos confundir modéstia com ignorância. Atrás dessas humildes palavras se esconde uma sabedoria imensa. E também é importante lembrar que os primeiros escravos foram os brancos. E como em toda a ação há uma reação, tudo que se planta se colhe, essa condição de escravo que eles passaram no Brasil, foi por eles mesmos escolhida, para pagarem débitos de um passado longínquo, quando eles mesmos foram donos de escravos, é o reverso. A lei da causa e efeito. Um Preto Velho arriado num terreiro de Umbanda com seu linguajar simples e fumando seu palheiro, significa humildade, sabedoria, luz, vivência, resignação, simplicidade, bondade, caridade, evolução um eterno orientador da vida espiritual do ser humano, principalmente com suas mensagens fraternas. Mais para que isso pudesse acontecer hoje, muitas foram as barreiras enfrentadas por eles até chegar num terreiro incorporando no seu médium, muitas delas criadas pelo próprio médium. Mesmo depois de muito sofrimento que passaram como escravos, muitas vezes sendo chicoteados, torturados, acorrentados, queimados a ferro por coisas sem significância alguma, mesmo assim, estão ali presentes nos terreiros, sem ódio, sem rancor, sem mágoa, sem cansar nunca de ouvir os filhos reclamarem da vida, da sorte, do amor, do trabalho, do dinheiro, negócios etc. Estão ali sentados no chão, num banco ou num toco para ouvir os filhos confortá-los e transmitir ensinamentos de vida material e espiritual, dizendo principalmente que essa não é a primeira nem a última vida que irão viver na terra. Pena que muitos ainda não queiram entender isso. Os Preto-Velhos e Africanos que nós chamamos de pais, mães, vovôs, vovós, tios, tias, têm origens africana, ou seja, nos negros escravos contrabandeados para o Brasil, que são hoje espíritos Africanos que compõe as linhas Africanas e linhas das Almas na Umbanda. São almas desencarnadas de Negros Africanos que foram trazidos para o Brasil como escravos, e batizados na igreja católica com um nome brasileiro, e hoje incorporam nos seus médiuns com a intenção de ajudar as Almas das pessoas ainda encarnadas na terra, orientando as para que não sofram o que eles sofreram, principalmente nas mãos dos senhores de engenhos, que se sentiam donos de tudo e de todos. Os negros eram caçados, muitas vezes trocados por especiarias, comprados e aprisionados na África e trazidos para o Brasil nos porões de navios negreiros com precárias condições de sobrevivência e maus-tratos, vindo muitos negros a falecerem no meio do caminho antes mesmo de chegar ao Brasil. Esse tráfico dos negros para o Brasil durou mais ou menos trezentos e cinquenta anos. E foram traficados mais ou menos quatro milhões de negros da costa da África para o Brasil, com destino a Bahia, Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Seus principais portos de embarque na África eram em Benim, Angola, Senegal, Moçambique, e São Thomé. Desses portos vieram os Cabindas do congo, os Benguelas de Angola, os Macuas e anjicos de Moçambique, os Munas da Costa da Guiné, os jejes do Daomé, os alças do Noroeste da Nigéria, os Iorubas ou Nagôs dos reinos de oyó e ketu. Após a chegada dos poucos que sobreviviam à viagem, eram vendidos no comércio brasileiro por quase nada para os senhores de engenhos onde seriam usados como escravos na mão de obra pesada das grandes fazendas, lavouras e canaviais. Após, eram alojados e trancados em senzalas de péssimo estado, e ali e dali para frente se resumiria suas vidas. As filhas das mulheres escravas, muitas vezes eram desvirginadas pelos seus senhores antes mesmo de completarem seus doze, treze anos. E quando engravidavam dos mesmos, seus filhos considerados bastardos eram vendidos para outras fazendas e lavouras mais distantes, evitando assim qualquer tipo de vínculo entre pai, mãe e filho. Dentro das senzalas também se formava casais entre os negros, e após gerarem dois ou três filhos eram separados evitando laços familiares. Por serem negros Africanos trazidos da África onde cultuavam os seus Orixás, junto também trouxeram os mesmos, pois nada poderiam trazer dos seus pertences alem de suas origens, tradições e identidade cultural que sem dúvida alguma trariam na sua Alma. Após o seu desencarne e por eles cultuarem os Orixás, os Preto Velhos e Africanos, são hoje espíritos iluminados que mais entende dos Orixás de cada pessoa e sua espiritualidade, orientando as matérias sobre o melhor caminho a ser seguido conforme a influência do seu Orixá de cabeça, ou até mesmo de sua vida passada. Está na hora de pensarmos sobre esses terríveis sofrimentos passados por esses Preto-Velhos e Africanos quando ainda estavam encarnados, e começarmos a valorizar um pouco mais essas Entidades iluminadas, poderosíssimas, de grande sabedoria e que trazem muita força e muita luz para dentro dos terreiros da Umbanda. Aproveito para lembrar que não só os Preto-Velhos, mas também a Umbanda está cada vez mais se perdendo no tempo por causa do tão famoso segredo de religião (fundamento). Segredo esse que muitas vezes os antigos acabam levando para o túmulo ao invés de expor mais as pessoas. Não cresce mais por causa do mesmo segredo, onde ninguém ensina nada para ninguém. Não vai para frente por causa do segredo de realizações dos seus rituais, dá até a impressão de que todos os rituais que fizemos devem ser às escondidas e por causa disso as pessoas leigas acabam às vezes até falando mal da religião por não saber o que ali se passa. Por isso devemos esclarecer, ensinar, mostrar, expor, divulgar e falar mais as pessoas leigas sobre nossos rituais, nossas festas, nossas entidades, convidá-las a participarem, só assim cada um fazendo a sua parte conseguiremos que a Umbanda cresça com o seu número de adeptos e ocupe o seu devido lugar perante a sociedade. Um abraço fraterno a todos os meus leitores e até uma próxima oportunidade. 
Salve as Linhas Africanas 
Salve as Linhas das Almas


Por: Evandro Mendonça

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