terça-feira, 11 de outubro de 2016

A TERRA SEM MALES (Marcelo Gutierrez)



À primeira vista, A Terra sem Males parece tratar-se de mais uma história sobre brancos e índios. Contudo, à medida que avançamos na leitura, somos transportados para outra esfera, passando a participar da história da formação do povo brasileiro, à época do descobrimento do Brasil, sob a ótica espiritual. Yvy marã e’ÿ era uma lenda indígena que falava de um lugar onde não havia fome, doenças e guerras: o lugar perfeito, o paraíso que todos desejavam alcançar. “Terra sem males” era a sua tradução. Este mito foi a base da resistência utilizada pelo povo guarani contra o domínio dos portugueses que aqui chegaram, no início do século XVI, sem moral nem escrúpulos, tendo em mente apenas o enriquecimento rápido e fácil. É desse embate que somos convidados a participar, viajando por florestas, rios e cachoeiras inimagináveis, conhecendo animais imponderáveis e partilhando das crenças de Yassanan e seu povo, guiados por Parassuá, o todo-poderoso pajé que tinha a capacidade de se comunicar com dimensões paralelas. 

A saga desses heróis indígenas, tendo como cenário a Aldeia da Serra, nos remete a um mundo povoado por seres fantásticos, levando-nos a questionar sobre nossas verdades, nossas crenças. Não se trata apenas de mostrar o quanto o índio foi perseguido e humilhado, na tentativa vã dos europeus de despersonificá-lo, mas de nos conscientizar de que todo o progresso alcançado hoje em dia também pode nos levar à desagregação, com ar, rios e terras poluídos, alimentos contaminados e indivíduos cada vez mais solitários. 

Mais do que uma leitura fascinante, porque mergulhamos num universo místico que nos faz experimentar sentimentos como prazer, ternura, suspense e medo, este romance homenageia os caboclos da Umbanda, verdadeiros pais das terras brasileiras, seus legítimos ancestrais, e nos aponta o poder de transformação das pessoas quando elas se desnudam de séculos de introjeção do que deveriam ter e passam a guiar-se por sentimentos puros.


Por: Marcelo Gutierrez

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